Apresentação

Espaço para a apresentação e análise de estudos e pesquisas de alunos da UFRJ, resultantes da adoção do Método de Educação Tutorial, com o objetivo de difundir informações e orientações sobre Química, Toxicologia e Tecnologia de Alimentos.

O Blog também é parte das atividades do LabConsS - Laboratório de Vida Urbana, Consumo & Saúde, criado e operado pelo Grupo PET-SESu/Farmácia & Saúde Pública da UFRJ.Nesse contexto, quando se fala em Química e Tecnologia de Alimentos, se privilegia um olhar "Farmacêutico", um olhar "Sanitário", um olhar socialmente orientado e oriundo do universo do "Consumerismo e Saúde", em vez de apenas um reducionista Olhar Tecnológico.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Suplementação de Ômega 3 em cápsulas: existem riscos associados ao seu consumo?


Figura 1. Imagem ilustrativa de cápsulas de Ômega 3.

O consumo de alimentos riscos em ômega 3 é essencial para a saúde, sendo associado à prevenção e tratamento de algumas doenças; com isso a busca pela suplementação de ômega 3 em cápsulas aumentou muito ao longo dos anos, inclusive devido à grande propaganda que se faz somente dos benefícios do uso desse suplemento. Porém, será que o consumo de cápsulas de ômega 3 é sempre indicado para combater doenças de qualquer pessoa, mesmo quando não há recomendação médica?


Introdução

Os ácidos graxos ômega 3 são uma classe essencial de ácidos graxos poliinsaturados (AGPIs), nos quais a primeira dupla ligação, a partir do grupo metila se encontra no carbono 3 e são encontrados principalmente no óleo de peixe. Os ácidos graxos ômega 3 clinicamente importantes incluem: ácido (α) linolênico (LNA), ácido eicosapentanoico (EPA) e ácido docosahexaenoico (DHA) (Shils et .al., 2003). 

Estudos epidemiológicos demonstram que a ingestão regular de peixe na dieta tem efeito favorável sobre os níveis de triacilgliceróis, na pressão sanguínea, no mecanismo de coagulação, no ritmo cardíaco, na prevenção do câncer colônico e na redução da incidência de aterosclerose (Frank et al.,1994). 

Na década de 70 foi descoberto que os ácidos graxos ômega 3 podiam desempenhar um papel importante em doenças cardiovasculares, quando Bang e Dyerberg (1972) relataram que os esquimós apresentavam baixas taxas desta doença, apesar de consumirem uma dieta rica em gordura;  porém, a dieta ocidental é atualmente deficiente em ácidos graxos ômega 3 (Simopoulos,1991), sendo muitas vezes o consumo de suplementos em cápsulas de ômega 3 estimulado, sendo possível encontrar no mercado físico e virtual uma gama de suplementos alimentares à base de óleo concentrado de peixe ou microalga, assim como produtos industrializados enriquecidos com este ácido graxo. 

No entanto, já está comprovado que o excesso de ômega 3 no organismo pode trazer problemas à saúde, devendo a suplementação ser feita somente com orientação médica e de acordo com as necessidades de cada paciente.


Fundamentos Bromatológicos e Legislação

A Sociedade Brasileira de Cardiologia indica a ingestão de um grama por dia de ômega 3 para auxiliar no tratamento de doença coronariana. Já segundo a Organização Mundial da Saúde, recomenda-se o consumo de duas porções de peixe por semana, o que forneceria de 200 mg a 500 mg de EPA e DHA, quantidade que seria considerada suficiente para auxiliar na prevenção de doenças. Pessoas que não incluem peixes na dieta podem optar ainda pela inclusão de algas marinhas, que também são fontes de EPA e DHA e de alimentos ricos em ALA que, uma vez no organismo, é convertido em EPA e DHA através da ação de enzimas.

Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que suplementação de ômega 3 é benéfica para mulheres grávidas, pois este ácido graxo é fundamental para o desenvolvimento cerebral do feto durante o período gestacional, sendo indicado o consumo de 133 mg a 3 g de ômega 3 diariamente, variando de acordo com fatores avaliados pelo médico durante o pré-natal.

O primeiro risco relaciona-se inclusive à ingestão de uma dose superior à 3 gramas diárias de ômega 3, que de acordo com informações da Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA, seria suficiente para favorecer a ocorrência de episódios hemorrágicos em algumas pessoas, devido à propriedade anticoagulante do ômega 3, sendo o risco ainda maior em gestantes.

Um estudo de Jorge e Colaboradores (1997) mostrou outros riscos do consumo de ômega 3 em excesso: a elevação do colesterol e a peroxidação lipídica (destruição dos ácidos graxos poli insaturados que constituem as membranas das células pela ação dos radicais livres, favorecendo o estresse oxidativo). Este estudo, feito em animais, mostrou que a administração de ácidos graxos ômega 3, na dependência da dose utilizada e do animal de experimentação, aumenta a peroxidação das LDL e da parede arterial, elevando assim o colesterol plasmático e comprometendo a função endotelial, favorecendo, assim, o desenvolvimento da aterosclerose; resultado este inverso dos que mostraram a diminuição da mortalidade por doença coronária, que então puderam ser interpretados como decorrentes da ação antitrombótica do ômega 3.

Por fim, um estudo recente de Brasky e Colaboradores (2013), publicado no Journal of the National Cancer, relaciona quantidades muito altas de ômega 3 no organismo com a maior incidência de câncer de próstata, sendo esta relação ainda não muito bem esclarecida, devendo ser melhor investigada em outros estudos.


Discussão

O rótulo da embalagem (com 30 cápsulas) de uma marca que comercializa cápsulas de ômega 3 (Figura 2), especifica que 1 cápsula contém 320 mg de ômega 3; já outra marca (Figura 3) especifica que uma cápsula contém 1000 mg de ômega 3,  e ambas as dosagens estão de acordo com o especificado pela OMS.



         Figuras 2 e 3. Rótulo de cápsulas de Ômega 3 (Farmacis Natural e TopTherm).


Conclusão

Mesmo com todos os benefícios que a ingestão de ômega 3 traz aos humanos, como mostrado por diversos estudos, a suplementação de ômega 3 só é recomendada como método auxiliar de tratamento de doenças já existentes, e sob prescrição médica, visto que o uso indiscriminado pode desencadear problemas de saúde relacionados ao excesso de ômega 3 no organismo. Porém, estes efeitos adversos do excesso desta substância no corpo ainda são assunto muito recente, pois decorrem, sobretudo, da prática de suplementação.

Portanto, para pessoas que não estão sob tratamento médico, não é recomendado suplementar o ômega 3 com o uso de cápsulas por conta própria; recomenda-se que seu consumo seja feito exclusivamente através de alimentos naturalmente ricos nessa substância, como peixes.


Referências Bibliográficas

Brasky T. M., et alPlasma Phospholipid Fatty Acids and Prostate Cancer Risk in the SELECT Trial. Journal of the National Cancer Institute. 2013; 105 (15): 1132-1141.


Hooper L., et al. Omega 3 fatty acids for prevention and treatment of cardiovascular disease. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2004; Issue 4. Art. No.: CD003177. DOI: 10.1002/14651858.CD003177.pub2.

Jorge P.A.R., et alEfeito dos Ácidos Graxos Ômega-3 sobre o Relaxamento-Dependente do Endotélio em Coelhos Hipercolesterolêmicos. Arq Bras Cardiol. 1997; 69 (nº 1), 13-18.

Santos R.D., Gagliardi A.C.M., Xavier H.T., Magnoni C.D., Cassani R., Lottenberg A.M. et al. Sociedade Brasileira de Cardiologia. I Diretriz sobre o consumo de Gorduras e Saúde Cardiovascular. Arq Bras Cardiol. 2013; 100(1Supl.3):1-40.


Nenhum comentário:

Postar um comentário